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Luiz Geraldo Dolino é aposentado do Banco do Brasil, no qual
fez carreira como especialista em comércio exterior. Ainda
estava na ativa quando foi convidado pelo ministro da
Indústria e Comércio do governo Itamar Franco, José Eduardo de
Andrade Vieira, para assessorá-lo no assunto de sua
especialidade. Conhecemo-nos então e nos identificamos pela
sensibilidade artística comum. Desde então, somos bons amigos.
No convívio com Carlos Drummond de Andrade, Nélida Piñon e
outros expoentes da literatura brasileira, este artista
plástico em tempo integral, que tem percorrido como sua arte
as rotas do mundo globalizado, que conhece tão bem como
bancário, sentiu-se desafiado pelo título de meu livro de
poesia reunida, Solos do Silêncio. E me presenteou com esta
gravura com as cores do crepúsculo do Planalto da Borborema,
que tanto amo, da paixão, que move e comove minha vida e das
bandeiras da Paraíba, do Flamengo, do Campinense, do Sport,
times de futebol de minha devoção. Divido com você, também
passageiro desta Estação, a emoção de apreciar a gravura de
meu amigo, aí ao lado.
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"Solos do Silêncio",
Dolino |
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Tentar explicar com palavras o que é representado por imagens
– já foi dito e repito – é trabalho árido. É por essa razão
que não devo tentar descrever uma sonata, emoção que nos
contamina por meio de impactos sonoros. Os exemplos são
múltiplos. No entanto, faz parte do cotidiano a leitura de
textos com pretensões explicativas, que procuram tornar
inteligíveis obras que pela sua natureza só se vinculam ou têm
compromisso com a experiência sensorial.
Por vezes, a crítica que mais tem enriquecido a minha
percepção vem de analistas que se detêm na crônica, no
contexto histórico e, até mesmo, anedótico da produção
artística. Os malabarismos retóricos, apreciáveis em si
mesmos, agregam menos ou pouco. Entendo, portanto, que –
quando capaz – para descrever o conjunto de fatos que
contribuíram para a gênese de um trabalho, ninguém melhor que
o seu autor, responsável final pelo delírio que resultou numa
crise criativa.
Sinto-me assim autorizado a mencionar algumas passagens que
eventualmente poderiam facilitar o mergulho na fantasia
alheia, no caso, na minha. Para essa excursão, preciso apenas
contar com a sensibilidade dos loucos que, mansamente, me
prestam socorro, evitando a viagem sem volta. E, a propósito,
lembro Camus, que disse certa vez já não ter amigos; tinha
somente cúmplices. Em compensação, completava o escritor, o
seu número havia aumentado – era toda a Humanidade.
O difícil caminho percorrido na busca de uma gramática pessoal
levou-me ao encontro dos elementos gráficos de clara
inspiração geométrica que são visíveis na decoração de objetos
de uso cotidiano e ritualístico, assim como também no próprio
corpo de nossos ancestrais indígenas. Não será um exagero
afirmar que a linha curva, com a sua carga de sensualidade e
sua proximidade com imagens próprias da natureza, referida
aqui como paisagem, estão praticamente ausentes dessa
abordagem. Os índios brasileiros cultivaram o gosto pelas
formas simplificadas e estabeleceram uma linguagem capaz de
expressar o seu universo simbólico por meio de um sofisticado
código de formas geométricas.
Não é portanto de se estranhar que o artista brasileiro
tivesse se voltado para o mundo que se acha entranhado na sua
memória cultural, valendo-se desses elementos como fonte na
luta pela conquista de uma linguagem individual. As formas
exploradas no meu trabalho correspondem a uma ideologia que
tem suas raízes em dois pólos: o da tradição estética dos
povos fundadores de nossa nacionalidade e o da busca
permanente de valores plásticos capazes de fixar a nossa
identidade cultural, impressa numa linguagem com trânsito
universal.
Reconheço que há nessa intenção uma dose importante e
permanente de dedicação atenta ao contexto onde se insere a
minha realidade sócio-político e cultural. Logo, estou entre
esses artistas que buscam uma inserção no universo erudito, o
que implica estar antenado com a produção do meu tempo, não
apenas no campo das artes visuais mas de toda e qualquer
manifestação criativa. Como esclarecimento adicional, digo que
um caminho talvez capaz de desvendar o trânsito dos meus
interesses pode ser a simples leitura dos títulos que atribuo
a cada trabalho. Porém, antes de tudo, é bom deixar claro que
o nome da obra é mero indicativo de sua existência e
individualidade, mas que, no meu trajeto, é também um
registro, uma espécie de diário de bordo.
Ao avançar nestas notas, vou me dando conta de que, de certa
maneira, estou caindo na cilada que acaba por vitimar todo
esforço de explicação para uma empresa com o propósito singelo
de fazer a crônica de um processo criativo. Por isso sinto-me
incluído entre esses artistas que, ao iniciar um trabalho, não
têm outro objetivo senão o de livrar-se dele o mais rápido
possível e que, ao serem chamados a justificar-lhe a origem e
desenvolvimento, se vêem obrigados a recorrer a fórmulas
insatisfatórias, o que me remete à condição de um pobre mágico
que para revelar um truque se vale de outro.
Na verdade, não existe uma fórmula mágica para o entendimento
mesmo que parcial do processo de criação. Estamos diante de um
abismo que nos seduz e alucina. Mágico é, portanto, o espaço
branco, vazio que nos desafia, atrai e por vezes rejeita.
Nesse limite, nossos cúmplices jogam um papel fundamental,
pois cabe ao espectador – grupo no qual se insere também o
próprio autor diante da obra terminada – refletir sobre a
função do artista, sua habilidade e talento na organização do
caos. |
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Solos
do silêncio. São Paulo: Geração
Editorial, 1996.
Poesia reunida, editada por Luiz Fernando Emediato na Geração
Editorial. Ele mesmo cuidou do projeto da capa e eu reuni tudo o
que tinha produzido até então: As tábuas do Sol, Barcelona,
Borborema, poemas inéditos e algumas traduções. A respeito das
traduções, meu amigo Alexandre Daunt vivia me citando uma frase de
Millôr Fernandes que, segundo ele, dizia que o importante para o
tradutor era dominar bem a língua para a qual traduzia, não tanto
a língua da qual traduzia. Fiz um teste e, além de traduzir o
magnífico soneto “Les voyelles”, de Artur Rimbaud, passei para o
português poemas do catalão, que não falo e não leio, para provar
que Millôr estava certo. Contrariando minhas
expectativas e do editor, o livro chegou à
segunda edição.
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